sexta-feira, 28 de março de 2014

Nossos mestres, como Ariadne, nos conduz através do fio do conhecimento para fora do labirinto...

LITERATURA: BEM INCOMPRESSÍVEL

CÂNDIDO,Antônio. VÁRIOS ESCRITOS. Editora Ouro Sobre Azul, 5ª Edição. 2011. Cap. O direito à Literatura, pg. 171-193.

                        O autor Antônio Cândido já nos primeiros parágrafos do seu texto afirma que, para se falar em Literatura e Direitos Humanos são necessárias algumas outras reflexões nas questões dos direitos humanos. Em primeiro lugar, o autor cita uma importante questão contraditória tal como uma dicotomia: a racionalidade técnica do homem e seu domínio sobre a natureza x a irracionalidade do comportamento humano. Em miúdos, a reflexão é sobre como os humanos constroem a energia atômica que pode ser usada para o progresso e aumento do conforto da sociedade, e ao mesmo tempo, excluem das  grandes massas o acesso a tais privilégios. Afirma Cândido que, os mesmos meios que permitem o progresso provocam a degradação da maioria.
                        Por muito tempo, o socialismo foi idealizado como uma solução para os problemas dramáticos da sociedade. Posteriormente considerado como utopia, mesmo assim a  questão ainda pode ter uma abordagem positivista, conforme afirma o autor. Apesar do crescimento da barbárie humana frente à possibilidade real de melhorias consideráveis para a sociedade, existem aqueles que acreditam poderem transformar as teorias em realidade. Um aspecto abordado por Antônio Cândido é a questão das barbáries não serem mais vistas como naturais, prova maior apresentada pelo Tribunal de Nuremberg onde foram julgadas e condenadas altas patentes responsáveis pela morte de milhões durante a Segunda Guerra Mundial. De forma que, mesmo sendo o mal praticado, não é mais aclamado.
                   Os discursos ideológicos segundo o autor, não mais são vistos com a mesma tranquilidade pela sociedade. Mudança observada também juntamente aos políticos  e empresários nas representações dos problemas sociais. O discurso é do não fomento da desigualdade social e da não tolerância das grandes diferenças econômicas. Apesar da “hipocrisia generalizada”, termo citado por Cândido, a insensibilidade frente à miséria deve ser no mínimo disfarçada.                                  
                    Antônio Cândido afirma que a base de reflexão sobre os direitos humanos está no esforço para incluir o semelhante no mesmo elenco de bens que reivindicamos, no entanto, estabelecer a fronteira entre “Bens compressíveis” (bens supérfluos) e “bens incompressíveis” (bens essenciais à sobrevivência) é o grande problema dos direitos humanos, pois, segundo o autor, a maneira de conceber a estes depende daquilo que classificamos como “bens incompressíveis”.
                        Os “bens incompressíveis”, segundo Antônio Cândido, não são apenas: vestuário, instrução, saúde, liberdade individual, amparo da justiça pública e resistência à opressão, mas também aqueles que garantam a integridade espiritual, como o direito à crença, à opinião, ao lazer e, à arte e à literatura. A inserção da literatura no rol dos “bens compressíveis” passa por algumas reflexões, pois, para Antônio Cândido, um bem só pode ser inserido nesta categoria se responder a uma questão prévia, ou seja, um bem só pode ser considerado “incompressível” se corresponder a necessidades profundas do ser humano, portanto, segundo as reflexões realizadas pelo autor, a literatura corresponde às necessidades humanas, pois, segundo o autor a literatura é manifestação universal de todos os homens em todos os tempos, não podendo existir povo e homem que possa viver sem ela, isto é, sem a possibilidade de entrar em contacto com alguma espécie de fabulação, e sendo assim a literatura constitui-se como um “bem incompressível”.
                Grandes autores da literatura (renomados ou não) contribuíram para uma nova concepção humanista dos direitos humanos através de suas obras, que retratavam e denunciavam as condições precárias de vida dos trabalhadores e do povo da classe baixa inclusive os marginalizados. Segundo Candido, esse momento da literatura serviu de contribuição na luta pelos direitos humanos.
                       O autor defende que a literatura é indispensável a toda sociedade independente de sua classe social e que, inclusive, não é possível haver equilíbrio social sem a literatura visto que, através dela temos a capacidade de ordenar nossa mente, sentimentos e consequentemente nossa compreensão de mundo. O contato que temos com a literatura desenvolve em nós uma natureza mais humanista no sentido de compreender melhor o nosso semelhante.
                           Mas essa literatura que todos devem ter direito não pode ser restringida apenas à literatura de massa, embora tenham seu valor e devida importância para sociedade. O ideal é que todos tenham acesso a literatura erudita. O grande desafio está em tornar isso possível numa sociedade onde predomina a desigualdade social e a falta de oportunidades culturais. Para Candido, negar ou não conceder meios viáveis para isso é como mutilar a personalidade e os direitos humanitários das classes menos privilegiadas. A literatura pode interessar e beneficiar a todas as classes e se isto não acontece em nossa sociedade não é por falta de capacidade, mas sim por falta de oportunidade.
                        Dessa forma, Cândido relacionou a literatura com os diretos humanos de duas formas: como uma necessidade universal ligada diretamente aos traços e características humanas e também como instrumento de denúncia e revolta das diferenças sociais impostas pela classe dominante. A literatura, portanto, é um bem que pertence à humanidade independente de sua classe social. Deve ser levada e acessada por todas as pessoas para que haja uma ligação cultural entre todos e consequentemente pôr fim às desigualdades existentes.
                            Passaram-se vinte e seis anos desde que o autor Antônio Cândido, visionário, propôs essa análise lúcida, organizada e cheia de sentidos a respeito do direito das pessoas à Literatura como bem inalienável, numa proposta humanista e crítica. Proposta essa que continua atual e merecedora de releituras sob o manto de uma nova abordagem aos direitos humanos, onde se observa várias causas, mas raramente do direito à Arte e à Literatura como uma necessidade humanamente básica.
                           

Aline Nogueira Lima
Josiel Carvalho
Sandra Sousa



domingo, 16 de junho de 2013

CONTRIBUIÇÕES LINGUÍSTICAS – DOS ESTUDOS SAUSSURIANOS AOS ESTUDOS MODERNOS

CONTRIBUIÇÕES LINGUÍSTICAS – DOS ESTUDOS SAUSSURIANOS AOS ESTUDOS MODERNOS


SILVA, Francisco. www.e-revista.unioeste.br/travessias. Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Revista Travessias, ano 2008, volume 02, Nº 02.

Sandra Sousa, Acadêmica de Letras da Universidade Estadual de Mato Grosso/ UNEMAT – Campus Sinop. 1º semestre/2013.

                   O autor Francisco Borges da Silva nesse artigo conduz uma análise dos estudos pré-saussurianos ao Estruturalismo de Ferdinand de Saussure a partir das primeiras décadas do século XX quando se abaliza a Linguística como ciência, e faz uma reflexão ainda sobre o gerativismo e as linguísticas textuais.
                   Antes de assinalar a cientificidade da Linguística tem-se o movimento dos neogramáticos na Alemanha com a classificação das línguas, sua evolução e aspectos fonológicos, morfológicos e léxicos o que já traduzia em alguma precisão e ciência à Linguística.
                   No século XIX tem-se o precursor do estruturalismo saussuriano na pessoa do alemão Humbolt, que considerava a língua uma atividade e não um ato. Para ele a língua era composta de duas formas: externa através dos sons e interna através dos sentidos peculiares de cada língua.
                   Voltando um pouco mais no tempo o autor cita o primeiro texto de linguística conhecido: a gramática sânscrita de Panini – a língua como fim religioso – datada do século IV a.C. Já no século XVIII ao se comparar as línguas sânscritas com o grego e o latim e outras línguas nota-se uma similaridade entre elas estabelecendo-se os alicerces da gramática comparada, sendo o próximo passo uma certa cientificidade nos trabalhos do alemão Jacob Grimm com as correspondências fonéticas comparativas entre as consoantes do latim, grego sânscrito e indo-europeu conhecido como “lei de Grimm”.
                   Com a evolução dos modos comparativos da linguística, a partir do século XX o autor do artigo destaca que o estudos da linguística deixam de lado o aspecto histórico da língua – diacrônico –  e lança maior destaque ao seu aspecto sociocultural – sincrônico. Citando Faraco o autor referencia o conceito do estruturalismo de Ferdinand Saussure: “Saussure realizou um grande corte nos estudos linguísticos. Suas concepções deram as condições efetivas para se construir uma ciência sincrônica da linguagem. A partir do seu projeto não houve mais razões para não se construir uma ciência autônoma a tratar exclusivamente em si mesma e por si mesma, e sob o pressuposto da separação estreita entre a perspectiva histórica e a não histórica.”
                   Privilegiando primordialmente o conceito sincrônico da linguística, o suíço Ferdinand Saussure, considerado o pai do estruturalismo europeu, elabora a dicotomia: diacronia x sincronia; significante x significado; paradigma x sintagma e; língua x fala. A partir daí dá-se um novo significado ao termo signo linguístico: conceito e imagem acústica.
De acordo com Saussure o signo linguístico “une não uma coisa e uma palavra, mas um conceito e uma imagem acústica.” A partir desses estudos, a língua passou a ser abordada sob dois aspectos: identidades e diferenças, ou seja, a língua é possuidora em si de uma identidade e de diferenças. Portanto para o fundador do estruturalismo o conceito fundamental e básico dos estudos da linguagem é o sistema e a estrutura.
                   Já para a abordagem gerativista, Chomsky (considerado o pai do gerativismo) aborda os estudos sincrônicos e diacrônicos ao mesmo tempo. Seu método de investigação era o principio socrático da dedução – do geral para o particular amparado pela gramática comparativista. Sob esse ponto de vista a língua também é um conjunto sistêmico e está dividida em competência, cognitivismo e desempenho.
                   Na segunda metade do século XX passou-se a considerar a linguagem em uso, em funcionamento. A linguística passa ser a do discurso, sendo os usuários, a sociedade e a cultura componentes da linguística textual. No artigo o autor declara que desde o gerativismo a parole – o discurso em si – ampliou seus estudos dando inicio a Linguística Textual (do Discurso, da Enunciação). É constituída a partir das heranças deixadas pelas hipóteses estruturalistas, semiótica literária, semiologia, linguística textual clássica integralizada em novas questões, e as produções verbais.
                   Citando um recorte do texto aqui analisado parafraseando Saussure, ao analisar criticamente esse estudo fica claro que “a fala, ao contrário da língua é algo puramente individual, são as ambições pelas quais o falante realiza o código da língua no propósito de exprimir seu pensamento pessoal...”. Desde os primórdios quando o ser humano, através da imitação dos sons da natureza iniciou-se ao processo da fala evoluindo para os signos e seus complexos estudos linguísticos, observa-se que as indagações com respeito à origem, a forma e o poder das palavras ainda terão vastas áreas para pesquisas e indagações, sendo as análises teóricas das várias concepções do estudo da Linguística significativas na construção desses novos conceitos linguísticos, não fugindo, entretanto, da máxima saussuriana de que o objetivo seja sempre o de exprimir o pensamento pessoal.


Sousa, Sandra. 16/06/2013.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

ANÁLISE SOCIOLÓGICA E CRÍTICA NA LITERATURA




CÂNDIDO, Antônio. LITERATURA E SOCIEDADE. Capítulo I: Crítica e Sociologia. Editora Ouro sobre Azul, 9ª Edição, 2006. RJ.

Sandra Sousa, Acadêmica de Letras da Universidade Estadual de Mato Grosso/ UNEMAT – Campus Sinop. 1º semestre/2013.

                   O autor Antônio Cândido em seu livro Literatura e Sociedade, cap. 1  Crítica e Sociologia, propõe uma análise da relação entre a obra literária e seu condicionamento social e a relação entre a obra literária e a valorização estética. Para isso, faz uma dissociação dessa análise em duas vertentes disciplinares: uma enquanto sociologia da literatura analisa as complexidades relativa as representações do fator social na literatura, a outra enquanto crítica literária analisa a obra com o objetivo de averiguar se o fator social fornece apenas dados  para sua realização ou se atua efetivamente na constituição de seu valor estético.
                   Citando Goethe, o autor nos leva a acreditar que os fatores sociais são agentes estruturais na criação de uma obra e estão efetivamente interligados com seu valor estético, não como enquadramento da obra dentro de uma determinada época, mas como fator da própria construção artística que assimila tal dimensão social introduzindo-a na sua construção literária.
                   Exemplificando a relação entre a construção sociológica literária e sua representatividade estética, o autor cita o romance Senhora de José de Alencar. Ele diz: “O livro possui certas dimensões sociais evidentes, cuja indicação faz parte de qualquer estudo, histórico ou crítico: referência a lugares, modos...”. Neste nível de análise faz-se valer o argumento de Fausto de Macrocosmos conforme cita o autor: “como tudo tece no todo, cada um nas outras obras e vidas!”.
                   Seguido esta ordem de ideias, o texto mostra que a análise de uma obra para ser completa deixará de se ater apenas à parte sociológica, psicológica ou linguística para ser analisada também em seu aspecto estrutural e funcional.
                   Por outro lado, o autor mostra o perigo de, tanto na análise sociológica quanto na análise crítica, se obliterar a verdade básica de uma obra tendo também a preocupação de não exaltar os elementos internos de uma obra em detrimento  de seus aspectos históricos, essencial para a compreensão dos seus sentidos.
                   No texto, o autor enumera as modalidades mais comuns das análises sociológicas da literatura. Ele cita primeiramente o método tradicional de correlacionar o conjunto de uma obra com as condições sociais. Em segundo lugar, está o método de analisar o quanto de uma obra se espelha na sociedade, se baseia em seus aspectos reais e sociológicos. Em terceiro e o mais coerente segundo Antônio Cândido, consiste na correlação entre a obra e o público – sua aceitação. Ainda dentro dos estudos sociológicos o quarto método consiste na análise da função social do autor, procurando relacionar sua produção e posição com a organização da sociedade. Em um quinto método o texto nos fala da investigação e função política das obras e seus autores. Em sexto e último método, observa-se a análise sociológica da literatura hipotética: poesias, tragédias, política.
                   Em última análise subjetiva, vemos que o autor Antônio Cândido nos transmite a ideia de que levar em consideração os fatores sociais como formadores da estrutura, da construção de uma obra, bem como ponderar os fatores psíquicos são fundamentais para a análise literária. Esses fatores anulam a crítica determinista que generaliza a obra através de uma versão demasiado ampla. Anulam ainda o estruturalismo radical que despreza a dimensão histórica dificultando a adequação do pensamento contemporâneo ante ao enfrentamento dos problemas de que se ocupam.
                                                                                                                             
                                                                                                                           

segunda-feira, 29 de abril de 2013

REPENSANDO O SILENCIO


REPENSANDO O SILÊNCIO
 Princípios da Significação

ORLANDI, Eni. AS FORMAS DO SILÊNCIO: No movimento dos sentidos. Editora UNICAMP 6ª Edição. 2007. Campinas, SP, p 29-40, 104-127.

Sandra Sousa, Acadêmica de Letras da Universidade Estadual de Mato Grosso/ UNEMAT – Campus Sinop. 1º semestre/2013.

                        Pesquisadora e docente, a professora Eni Orlandi, que introduziu no Brasil a Análise do Discurso no final da década de 70, foi ganhadora em 1993 do prêmio Jabuti em Ciências Humanas com o livro As Formas do Silêncio. Nesse estudo, a autora procura explanar os sentidos do silencio enquanto linguagem, procurando entretanto uma definição, a especificidade dessa forma de expressão.
                        Passando pelos dizeres da espiritualidade na ordem do discurso religioso onde o homem encontra no silencio uma forma de comunicar-se espiritualmente e seguindo a ideia da multiplicidade do silêncio, Eni Orlandi passa para uma reflexão mais ampla quando em seu estudo nos introduz a uma outra característica sobre esse tema; a política do silencio, o silenciamento, tendo sua retórica, seu discurso tanto nas bases da dominação como também nas bases da resistência.
                        Principiando pela ideia de que o homem conseguiu definir a linguagem a    partir do momento em que instituiu o silencio como algo significativamente discernível, a autora conjectura que para compreender a linguagem é preciso compreender primeiro o silencio. E nesse ponto nos coloca que o “silêncio é fundante”, é significante por excelência, podendo ser considerado como a parte fidedigna do discurso. Repensando o silencio dessa forma, como fundante, como base para a construção do discurso,  questiona também a forma como a linguagem nos é interposta pela ciência como algo que figura ou prevalece tendo o silêncio como coadjuvante. Para a autora o silêncio é a matéria prima, a parte fundamental do discurso. Ele tem primazia sobre as palavras. A medida que a linguagem domestica a significação tornando-a visível e calculável, o silencio não está disponível visualmente. Ele é profundo e incalculável como o mar, onde as ondas são apenas ruídos. Metáfora da linguagem, onde o silencio predomina e as palavras são as ondas.
                        Considerando a articulação entre o gesto e o silencio o texto revela que a gestualidade está orientada para a fala, o gesticular das palavras, o que torna nossas ideias audíveis e intercambiáveis. Sociologicamente, o homem sem palavras ou em silencio é considerado um homem sem sentido. E com isso conceitua-se que o espaço deve ser ocupado pelos sons, pelo barulho das palavras semeando a ideia de que o silencio é vazio, sem sentido ou significação, confirmando a centralidade da linguagem. A autora propõe um deslocamento, uma descentralização dessa ideia fixa ao qual, a seu ver seria mediadora, segundo suas palavras: “o silêncio, mediando as relações entre a linguagem, mundo e pensamento, resiste à pressão de controle exercida pela urgência da linguagem e significa de outras e muitas maneiras”.
                        No capítulo Silêncios e Resistencia, Eni Orlandi com base em sua ideia central de que o silencio significa, é fundante, oferece uma segunda linha de pensamento para se compreender os sentidos do silencio. Tendo como referencia as formações discursivas, propõe compreender o silencio partindo do pressuposto da autoria e da censura no discurso. E define a censura como a proibição de certos discursos impedindo o sujeito de circular em determinadas regiões do dizer nas diferentes ordens sociais: política, moral, estética, religiosa entre outros. Citando a ditadura correlaciona o não dizível pela intervenção das relações de força no momento do enunciado: não se pode dizer o que se poderia dizer, mas foi proibido.
                        Dentro da censura em suas dimensões com o dizível fica pautado uma diferença entre o censurado por um poder explicito e o censurado por formas implexas da nossa relação com o dizível através do inominável, do constituído historicamente nos limiares dos nossos outros sentidos. Nota-se no texto um aspecto fundamental da censura: o silencio imposto significa uma interdição no nível de circulação e elaboração histórica dos sentidos, impossibilitando o processo de identificação dos sentidos do sujeito e seu processo histórico. Para isso a autora analisa o fato linguístico do silencio imposto pela censura na época da Ditadura Militar no Brasil, ocorrida a partir de 1964. Para tratar dessa questão define-se nesse texto o povo e o discurso social, tomando o povo como autores da resistência e o discurso social a textualidade que os representa. Partindo então dessa concepção nota-se que a resistência à ditadura parte do principio do silencio que se instala consensualmente e que significa justamente o que do dizível não se pode dizer. Determina-se aqui definitivamente que o silencio é fundante, trabalha a mesma região dos sentidos da censura, significando, sendo que esses sentidos reproduzidos em forma de silencio estão carregados de outros sentidos possíveis, porém não ditos. Exemplificando, a autora nos remete a situações ocorridas naquele período que reafirmam o que se propõe nessa analise: Nos jornais os editores deixavam vazios os espaços censurados, porém a própria censura ciente da significação daquele silencio e sua representatividade, obrigava os editores a preencherem esses espaços com textos neutros. Então os editores sempre substituíam os espaços em branco por textos de receitas de cozinha ou fragmentos do poema Os Lusíadas, de Camões. Os leitores sabiam atribuir outros sentidos a esses textos, o hábito de ler jornais ou revistas adquiriu um sentido histórico muito particular naquele período. Jogava-se ainda com as metáforas, com expressões jocosas de duplo sentido, com o sentido das cores, as letras das músicas, dando no texto destaque a Música Popular Brasileira por sua forma peculiar de resistência com o deslocamento dos sentidos nas construções linguísticas de suas canções. Destaque se dá para o cantor e compositor Chico Buarque de Holanda, quando o seu próprio nome se instala nesse silencioso momento histórico como símbolo da resistência, por isso censurado. Sua linguagem metafórica está em todo lugar abrangendo todos os sentidos, até mesmo o autoritarismo das gravadoras e os comportamentos sociais.
                        A analise conclusiva da autora é que não se pode atribuir à censura eficiência em sua execução posto que os sentidos da resistência trabalham o mesmo campo dos sentidos da censura, movimentando-se e materializando entre o não dizível de varias formas no processo histórico.
                        Ponderando subjetivamente sobre esse texto, observamos que a autora  quebra alguns paradigmas ao colocar o silencio como fundante, como parte principal na produção dos sentidos, na produção da linguagem e dos discursos. Citando a significação do silencio na ditadura como exemplo de linguagem própria da resistência, encontrando em outros sentidos o dizer que se era proibido, Eni Orlandi nos convida a fazer uma analise mais ampla dessa interdição do dizer em nossas vidas, nas várias formas em que se apresenta.
                       

sábado, 27 de agosto de 2011

Bumerangue



Adoramos a violência..nos esportes de luta, nos vídeo-games, no vizinho, no bar alheio, nos filmes, nas novelas e em tanto outros lugares que não a nossa casa...
Daí quando ela chega, achamos o fim do mundo, e é verdade...é o fim do nosso mundo, do nosso sossego, da nossa paz e tranquilidade.
Ficamos tão acostumados com  a violência alheia escancarada pela televisão, jornais, internet que viram rotina na nossa vidas: nossa como o mundo está violento! nossa, você viu o que aconteceu com fulano? Vc viu a notícia da briga de trânsito que deu no jornal das..?
Mas quando ela bate às nossas portas,  paramos para pensar o quanto o sistema é frágil, o quanto somos frágeis e nossa vida está a mercê de tudo quanto é violência.
Mas não éramos nós que estávamos aplaudindo, no fundo do coração torcendo, vibrando e nos satisfazendo com a violência alheia?
Não somos nós que entramos nos nossos carrões como se fossem blindados e lá dentro decidimos que tudo que está do outro lado é mais frágil e inferior por isso deve ser 'superado'? Seja a faixa de pedestre, o sinal quase vermelho ou até mesmo o animal que na sua ignorância se aventura à nossa frente? Até mesmo por cima de rotatórias passamos ao invés de contorná-las...
E assim vamos vivendo dentro da bolha da ignorância, presenciando a violência, achando-a comum, repassando isso aos outros mas achando o fim do mundo quando a mesma bate à nossa porta...