segunda-feira, 29 de abril de 2013

REPENSANDO O SILENCIO


REPENSANDO O SILÊNCIO
 Princípios da Significação

ORLANDI, Eni. AS FORMAS DO SILÊNCIO: No movimento dos sentidos. Editora UNICAMP 6ª Edição. 2007. Campinas, SP, p 29-40, 104-127.

Sandra Sousa, Acadêmica de Letras da Universidade Estadual de Mato Grosso/ UNEMAT – Campus Sinop. 1º semestre/2013.

                        Pesquisadora e docente, a professora Eni Orlandi, que introduziu no Brasil a Análise do Discurso no final da década de 70, foi ganhadora em 1993 do prêmio Jabuti em Ciências Humanas com o livro As Formas do Silêncio. Nesse estudo, a autora procura explanar os sentidos do silencio enquanto linguagem, procurando entretanto uma definição, a especificidade dessa forma de expressão.
                        Passando pelos dizeres da espiritualidade na ordem do discurso religioso onde o homem encontra no silencio uma forma de comunicar-se espiritualmente e seguindo a ideia da multiplicidade do silêncio, Eni Orlandi passa para uma reflexão mais ampla quando em seu estudo nos introduz a uma outra característica sobre esse tema; a política do silencio, o silenciamento, tendo sua retórica, seu discurso tanto nas bases da dominação como também nas bases da resistência.
                        Principiando pela ideia de que o homem conseguiu definir a linguagem a    partir do momento em que instituiu o silencio como algo significativamente discernível, a autora conjectura que para compreender a linguagem é preciso compreender primeiro o silencio. E nesse ponto nos coloca que o “silêncio é fundante”, é significante por excelência, podendo ser considerado como a parte fidedigna do discurso. Repensando o silencio dessa forma, como fundante, como base para a construção do discurso,  questiona também a forma como a linguagem nos é interposta pela ciência como algo que figura ou prevalece tendo o silêncio como coadjuvante. Para a autora o silêncio é a matéria prima, a parte fundamental do discurso. Ele tem primazia sobre as palavras. A medida que a linguagem domestica a significação tornando-a visível e calculável, o silencio não está disponível visualmente. Ele é profundo e incalculável como o mar, onde as ondas são apenas ruídos. Metáfora da linguagem, onde o silencio predomina e as palavras são as ondas.
                        Considerando a articulação entre o gesto e o silencio o texto revela que a gestualidade está orientada para a fala, o gesticular das palavras, o que torna nossas ideias audíveis e intercambiáveis. Sociologicamente, o homem sem palavras ou em silencio é considerado um homem sem sentido. E com isso conceitua-se que o espaço deve ser ocupado pelos sons, pelo barulho das palavras semeando a ideia de que o silencio é vazio, sem sentido ou significação, confirmando a centralidade da linguagem. A autora propõe um deslocamento, uma descentralização dessa ideia fixa ao qual, a seu ver seria mediadora, segundo suas palavras: “o silêncio, mediando as relações entre a linguagem, mundo e pensamento, resiste à pressão de controle exercida pela urgência da linguagem e significa de outras e muitas maneiras”.
                        No capítulo Silêncios e Resistencia, Eni Orlandi com base em sua ideia central de que o silencio significa, é fundante, oferece uma segunda linha de pensamento para se compreender os sentidos do silencio. Tendo como referencia as formações discursivas, propõe compreender o silencio partindo do pressuposto da autoria e da censura no discurso. E define a censura como a proibição de certos discursos impedindo o sujeito de circular em determinadas regiões do dizer nas diferentes ordens sociais: política, moral, estética, religiosa entre outros. Citando a ditadura correlaciona o não dizível pela intervenção das relações de força no momento do enunciado: não se pode dizer o que se poderia dizer, mas foi proibido.
                        Dentro da censura em suas dimensões com o dizível fica pautado uma diferença entre o censurado por um poder explicito e o censurado por formas implexas da nossa relação com o dizível através do inominável, do constituído historicamente nos limiares dos nossos outros sentidos. Nota-se no texto um aspecto fundamental da censura: o silencio imposto significa uma interdição no nível de circulação e elaboração histórica dos sentidos, impossibilitando o processo de identificação dos sentidos do sujeito e seu processo histórico. Para isso a autora analisa o fato linguístico do silencio imposto pela censura na época da Ditadura Militar no Brasil, ocorrida a partir de 1964. Para tratar dessa questão define-se nesse texto o povo e o discurso social, tomando o povo como autores da resistência e o discurso social a textualidade que os representa. Partindo então dessa concepção nota-se que a resistência à ditadura parte do principio do silencio que se instala consensualmente e que significa justamente o que do dizível não se pode dizer. Determina-se aqui definitivamente que o silencio é fundante, trabalha a mesma região dos sentidos da censura, significando, sendo que esses sentidos reproduzidos em forma de silencio estão carregados de outros sentidos possíveis, porém não ditos. Exemplificando, a autora nos remete a situações ocorridas naquele período que reafirmam o que se propõe nessa analise: Nos jornais os editores deixavam vazios os espaços censurados, porém a própria censura ciente da significação daquele silencio e sua representatividade, obrigava os editores a preencherem esses espaços com textos neutros. Então os editores sempre substituíam os espaços em branco por textos de receitas de cozinha ou fragmentos do poema Os Lusíadas, de Camões. Os leitores sabiam atribuir outros sentidos a esses textos, o hábito de ler jornais ou revistas adquiriu um sentido histórico muito particular naquele período. Jogava-se ainda com as metáforas, com expressões jocosas de duplo sentido, com o sentido das cores, as letras das músicas, dando no texto destaque a Música Popular Brasileira por sua forma peculiar de resistência com o deslocamento dos sentidos nas construções linguísticas de suas canções. Destaque se dá para o cantor e compositor Chico Buarque de Holanda, quando o seu próprio nome se instala nesse silencioso momento histórico como símbolo da resistência, por isso censurado. Sua linguagem metafórica está em todo lugar abrangendo todos os sentidos, até mesmo o autoritarismo das gravadoras e os comportamentos sociais.
                        A analise conclusiva da autora é que não se pode atribuir à censura eficiência em sua execução posto que os sentidos da resistência trabalham o mesmo campo dos sentidos da censura, movimentando-se e materializando entre o não dizível de varias formas no processo histórico.
                        Ponderando subjetivamente sobre esse texto, observamos que a autora  quebra alguns paradigmas ao colocar o silencio como fundante, como parte principal na produção dos sentidos, na produção da linguagem e dos discursos. Citando a significação do silencio na ditadura como exemplo de linguagem própria da resistência, encontrando em outros sentidos o dizer que se era proibido, Eni Orlandi nos convida a fazer uma analise mais ampla dessa interdição do dizer em nossas vidas, nas várias formas em que se apresenta.
                       

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